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Como estruturar os trabalhos de casa


Qual é o melhor método para os trabalhos de casa dos seus filhos? Como torná-los mais eficazes? Um terço dos pais acha que são inúteis




Quando pensa em estudantes, vê crianças sobrecarregadas e stressadas dobradas sob mochilas repletas de livros escolares e fichas de exercícios? Ou lembra-se de adolescentes de olhos vidrados e cabeça vazia sentados à frente de ecrãs de computador, consumidos por jogos de computador e sites de redes sociais, mesmo quando os seus colegas na China se preparam para terem as melhores notas noutra série de provas académicas?


Por mais divergentes que sejam, estas caracterizações têm uma ênfase em comum: os trabalhos de casa. O tempo de estudo que os alunos do segundo e terceiro ciclo despendem após o toque para a saída ou é uma sobrecarga excessiva ou uma actividade crucial que precisa de ser reforçada. Afinal qual delas é? Os estudantes têm demasiado trabalho de casa ou o que têm é insuficiente? Nenhuma, diria eu. Devíamos estar a colocar uma questão completamente diferente. O que deve preocupar os pais e educadores é isto: Até que ponto são eficazes no avanço da aprendizagem os trabalhos de casa das crianças?


A quantidade do trabalho de casa dos estudantes é muito menos importante do que a sua qualidade. E as evidências sugerem que até agora, o trabalho de casa não é responsável pelo sucesso nas notas. Num estudo de 2008, um terço dos pais entrevistados classificaram a qualidade dos trabalhos de casa dos seus filhos como aceitável ou fraca, e 4 em 10 disseram que acreditavam que parte ou grande parte do trabalho de casa era inútil. Um novo estudo, que vai sair na Economics of Education Review, indica que os trabalhos de casa em ciências, inglês e história têm “pouco a nenhum impacto” nas classificações dos testes. (Mas os autores repararam num efeito positivo no caso da matemática.) Enriquecer a aprendizagem das crianças na sala de aula não exige que os trabalhos de casa sejam mais ou menos, mas que sejam mais inteligentes.


Felizmente, a investigação está disponível para ajudar pais, professores e administradores escolares a fazerem isso precisamente. Nos últimos anos, neurocientistas, cientistas cognitivos e psicólogos educacionais fizeram uma série de descobertas notáveis sobre como o cérebro humano aprende. Criaram uma nova disciplina, conhecida como Mente, Cérebro e Educação, que se dedica a compreender e melhorar as formas como as crianças assimilam, retêm e aplicam conhecimento.


Mas as inovações ainda não foram aplicadas ao trabalho de casa. Os métodos de Mente, Cérebro e Educação poderão parecer estranhos e até inesperados, mas são simples de compreender e fáceis de executar. E os trabalhos de casa são oportunos para o tipo de melhorias que a nova ciência oferece.


A “repetição espaçada” é um exemplo do tipo de técnicas baseadas em evidências que os investigadores descobriram ter um impacto positivo na aprendizagem. E é assim que funciona: Em vez de concentrar o estudo de informação em blocos únicos, como são muitos dos trabalhos de casa actualmente, os alunos encontram o mesmo material em sessões mais breves distribuídos por um período de tempo mais longo. Com esta abordagem, os estudantes voltam novamente a ser expostos à informação ao longo do período.


Parece despretensioso, mas a repetição espaçada produz resultados impressionantes. Estudantes de história do oitavo ano que confiaram numa abordagem espaçada à aprendizagem quase duplicaram a taxa de retenção em comparação com alunos que estudaram o mesmo material numa unidade consolidada, indicaram investigadores da Universidade da Califórnia - San Diego em 2007. A razão para o método funcionar tão bem tem a ver com o cérebro:


Quando começamos a adquirir memórias, estas são voláteis, sujeitas a alterações ou com a probabilidade de desaparecerem. Expor-nos a informação repetidamente ao longo do tempo fixa-a de forma mais permanente nas nossas mentes, fortalecendo a representação da informação que está incorporada nas nossas redes neuronais.


Uma segunda técnica de aprendizagem, conhecida como “treino de recuperação,” emprega uma ferramenta familiar – o teste – de uma nova forma: não avaliar o que os estudantes sabem, mas reforçar. Pensamos frequentemente na memória como algo semelhante a um tanque de armazenamento e um teste como um tipo de tira de teste que mede quanta informação colocámos lá. Mas não é assim que o cérebro funciona verdadeiramente. Cada vez que recorremos à memória, tornamo-la mais forte e mais duradoura, de forma que o teste não mede simplesmente, ele altera a aprendizagem. Ler simplesmente o material a ser aprendido, ou mesmo tirar apontamentos e sublinhar, como muitos trabalhos de casa exigem, não tem este efeito.


De acordo com uma experiência, os estudantes de idiomas que usaram a estratégia de treino de recuperação para estudar vocabulário lembraram-se de 80 por cento das palavras que aprenderam, enquanto os estudantes que usaram métodos de estudo convencionais só se recordaram de cerca de um terço.


Os estudantes que usaram o treino de recuperação para aprender ciência retiveram cerca de 50 por cento mais de material do que os estudantes que estudaram de formas tradicionais, revelaram este ano investigadores da Universidade Purdue. Os estudantes – e pais – poderão resmungar com a perspectiva de mais testes, mas os auto-questionários envolvidos no treino de recuperação não precisam de provocar nenhuma ansiedade. É simplesmente uma forma eficaz de nos concentrarmos menos na “entrada” de conhecimento (ler passivamente manuais e apontamentos) e mais na sua “saída” (chamar essa mesma informação do nosso próprio cérebro).


Outra confusão comum relativamente a como aprendemos sustenta que se a informação parece fácil de assimilar, aprendemo-la bem. Na realidade, o oposto é verdade. Quando trabalhamos arduamente para compreender informação, recordamo-la melhor; o esforço extra indica ao cérebro que vale a pena reter este conhecimento. Este fenómeno, conhecido como disfluência cognitiva, promove a aprendizagem tão eficazmente que os psicólogos criaram todo o tipo de “dificuldades desejáveis” a introduzir no processo de aprendizagem: por exemplo, espalhar erros de pontuação num excerto de texto, deixar de fora letras deliberadamente, diminuir o tamanho de letra até ficar minúsculo ou agitar um documento enquanto está a ser copiado para que as palavras saiam borradas.


Não é provável que os professores comecem a enviar estudantes para casa com fichas de trabalho manchadas ou cheias de erros, mas existe outro tipo de dificuldade desejável – intitulada intercalação – que pode ser aplicada facilmente ao trabalho de casa. Um trabalho intercalado mistura diferentes tipos de situações ou problemas a serem treinados, em vez de os agrupar por tipo. Quando os estudantes não conseguem perceber com antecedência que tipo de conhecimento ou estratégia de resolução de problemas será necessário para responder a uma questão, os seus cérebros têm que trabalhar mais para arranjar a solução, e o resultado é que os alunos aprendem a matéria de forma mais completa.


Um estudo publicado no ano passado na Applied Cognitive Psychology pedia a alunos do 4º ano para trabalharem na solução de quatro tipos de problemas matemáticos e para depois fazerem um teste que avaliava até que ponto eles tinham aprendido. As pontuações daqueles cujos problemas estavam misturados foram superiores em mais do dobro do que as pontuações dos estudantes que tinham treinado um tipo de problema de cada vez. A aplicação aos trabalhos de casa destas estratégias baseadas na investigação é uma oportunidade ainda inexplorada para melhorar o desempenho dos alunos. A ciência mostrou-nos como transformar os trabalhos de casa num catalisador potente para a aprendizagem. Agora, a nossa tarefa é fazer com que aconteça.


Fonte: DinheiroVivo.pt - 13/09/2011

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quinta-feira, 15 de setembro de 2011